# Ideias para uma palavra-passe: porque é que as tuas não servem

> Nome mais ano, o «a» trocado por uma arroba, o nome do cão, a matrícula, um percurso pelo teclado. As ideias que te ocorrem são as que um atacante experimenta primeiro, e aqui estão medidas uma a uma.

2026-09-04 · David Carrero · password.es
Original: https://password.es/pt/blog/ideias-para-uma-palavra-passe/

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Há uma pesquisa que se repete constantemente: **ideias para uma palavra-passe**. E
compreende-se, porque o formulário está ali à espera, é preciso inventar alguma
coisa e nunca ninguém te explicou como se faz.

O problema é que a palavra *ideias* já é a falha. Uma boa palavra-passe não é uma
boa ideia. **É uma palavra-passe que não tem ideia nenhuma por trás.**

E isto não é uma frase bonita para abrir um artigo: é literalmente como funciona
um ataque.

## A lista de ideias que te ocorrem é a lista que ele experimenta primeiro

Um ataque por dicionário não começa em `aaaaaaaa` e vai subindo. Começa pelas
palavras-passe que já foram divulgadas aos milhões, segue pelos nomes próprios,
nomes comuns, cidades, clubes de futebol e anos de quatro algarismos. E por cima
dessa base aplica regras: maiúscula no início, algarismo ou `!` no fim, `a` por
`@`, `e` por `3`, `o` por `0`, a palavra ao contrário, a palavra escrita duas
vezes.

Essas regras não são segredo nem novidade. Estão escritas há décadas e vêm de
série em qualquer ferramenta de ataque. Dito de outro modo: **o catálogo de
ocorrências a que chamarias «ideias para uma palavra-passe» é, mais ou menos por
esta ordem, o ficheiro de configuração de quem te ataca.**

Daqui em diante, todos os números saem do [verificador](/pt/verificador/) da casa,
que assume um ataque **offline a 10¹² tentativas por segundo contra um hash
rápido**. Isso está escrito por baixo do resultado, e sem esse dado nenhum tempo
significa nada. Podes reproduzir cada número: escreve o exemplo e olha.

## Ideia um: o teu nome e o ano em que nasceste

`Sofia1985`. Nove caracteres, uma maiúscula, quatro algarismos. Cumpre o que
exige meia internet.

O verificador parte-a em duas de relance: **«Está nos nossos dicionários»** para
`Sofia`, **«Parece um ano ou uma data»** para `1985`. Resultado: **28.400
tentativas**, o que a esse ritmo é *menos de um segundo*.

E repara porque são 28.400 e não um número astronómico. Não é por ser curta. É
que não são nove decisões, são duas: que nome e que ano. Os nomes frequentes
contam-se aos milhares; os anos que as pessoas realmente põem numa palavra-passe,
às dezenas. Multiplicas e está feito: escreveste nove caracteres e escolheste
entre menos de trinta mil palavras-passe possíveis.

## Ideia dois: trocar o «a» por uma arroba

Este é o truque em que toda a gente acredita, e o que envelhece pior.

`S0fi@1985` dá **83.600 tentativas**. Subiu, sim: para o triplo. E **o triplo de
nada continua a ser nada** — o verificador continua a medi-la em menos de um
segundo — porque a substituição não criou uma palavra-passe nova. Acrescentou
duas ou três perguntas de sim ou não que o atacante já tinha previstas: esta
pessoa trocou o `a`? E o `o`?

Repara que o verificador nem sequer muda o veredicto. Continua a dizer «Está nos
nossos dicionários», desta vez com a nota *com números no lugar de letras*.
Encontrou a palavra à mesma.

Se quiseres ver até onde isto vai, experimenta o exemplo canónico. `P@ssw0rd`, com
a sua maiúscula, a sua arroba, o seu zero e o seu ar de ter sido bem pensada, cai
em **17 tentativas**. Dezassete. Conta-se pelos dedos das duas mãos com um bocado
de paciência.

## Ideia três: escrevê-la ao contrário

`aifos1985` dá **28.400 tentativas**. O mesmo número, até ao último algarismo, que
`Sofia1985`.

Não é que inverter ajude pouco. **É que não muda absolutamente nada.** Inverter a
palavra é uma das regras que o dicionário traz de série, por isso o verificador
encontra-a na mesma e etiqueta-a na mesma, desta vez com a nota *escrita ao
contrário*.

O mesmo com repeti-la: `SofiaSofia` desce para **371 tentativas** — escrever o
dobro das letras deixa-te *pior* do que antes, porque «repete um pedaço» também é
um padrão com nome próprio.

## Ideia quatro: descer pelo teclado com os dedos

Quando alguém não quer pensar, olha para o teclado e percorre uma forma. Sai
`qwerty123`, ou `1qaz2wsx`, ou `1q2w3e4r`, ou `asdfghjkl`.

Parece aleatório porque não significa nada. Mas o teclado tem uma geometria fixa e
pequeníssima, e percorrê-la é exatamente aquilo que um programa faz melhor do que
tu:

- `qwerty123` → **273 tentativas**.
- `1qaz2wsx` → **29 tentativas**.

Vinte e nove. Estas palavras-passe estão tão gastas que nem sequer são precisas as
regras de teclado: aparecem tal e qual nas listas de palavras-passe divulgadas, e
o verificador despacha-as com um seco «Está nos nossos dicionários».

## Ideia cinco: o cão, e a data que nunca se esquece

`Toby2015!` é uma palavra-passe com biografia: o nome do cão, o ano em que chegou
a casa e um ponto de exclamação para contentar o formulário. Dá **1,2 × 10⁸
tentativas**, e continua a ser *menos de um segundo*.

Os nomes de animal mais comuns são uns milhares, e estão nas mesmas listas que os
nomes de pessoa. O `!` final contribui com aquilo com que contribui uma regra que
toda a gente aplica: nada.

Com a data marcante é ainda mais incómodo. `24121985` — um dia, um mês, um ano —
lê-se como oito algarismos, mas o verificador etiqueta-a «Contém uma data» e
resolve-a em **14.966 tentativas**. A razão é de calendário: há 31 dias, 12 meses
e um século largo de anos plausíveis. Oito algarismos que parecem dez milhões de
combinações são, na verdade, uns quinze mil.

É essa a armadilha da data: **dá-te comprimento sem te dar incerteza**, e a
incerteza é a única coisa que se paga.

## Ideia seis: a matrícula, e o que o verificador não consegue ver

`4521KDR` é outro caso, e vale a pena parar.

Aqui o verificador diz **«Não encontrámos nenhum padrão conhecido»** e calcula
**3,9 × 10¹⁰ tentativas**. Mas marca esse número como um **teto**, e essa palavra
é a parte importante: não encontrou o teu padrão, o que não prova que não tenhas
um. Mesmo assim, e sendo generoso, o tempo continua a ser *menos de um segundo*.

E aqui está a distância que é preciso perceber. O verificador não sabe que carro
tens. Quem te conhece, quem tem o teu Instagram à frente ou quem comprou uma base
de dados onde consta a tua matrícula, não precisa de 3,9 × 10¹⁰ tentativas:
precisa de uma. **O número que vês quando não há padrão mede a ignorância de um
desconhecido, não a de alguém que te andou a procurar.**

O mesmo vale para o número da porta, o número do cartão de cidadão, o telemóvel e
a data do casamento.

## O que as seis têm em comum

Nenhuma destas ideias falha por ser «pouco complexa». Todas falham pelo mesmo:
**são autobiografia**, e a autobiografia adivinha-se. O teu nome, o teu ano, o teu
cão, o teu carro, a tua maneira de percorrer o teclado. Cada uma dessas decisões
parece tua e pessoal, e é precisamente por isso que pertence a uma lista curta que
alguém já escreveu.

Acrescentar complexidade não resolve nada, porque a complexidade que *tu* aplicas
também é uma decisão tua e também está na lista. Por isso `S0fi@1985` sobe um
mísero fator três e `aifos1985` nem isso.

Se quiseres o argumento em números, está nos
[bits de entropia](/pt/blog/o-que-sao-os-bits-de-entropia/): o que conta não é
quantas palavras-passe *poderias* ter escrito, mas quantas sobram depois de
descontar tudo o que se sabe dos teus gostos.

## A saída não é uma ideia melhor: é deixar de ter ideias

A única forma de sair da lista é que a palavra-passe não saia da tua cabeça.

É exatamente isso que faz o
[Diceware](/pt/blog/diceware-dados-melhor-palavra-passe/): lanças cinco dados,
procuras o número numa lista de 7.776 palavras e anotas o que sai. Cada lançamento
vale 12,9 bits, e são 12,9 a sério, porque os dados não têm gostos, nem memória,
nem o teu ano de nascimento. Seis palavras dão uns 77 bits.

Mete uma no verificador e vê o que muda: seis palavras correntes tiradas aos dados
passam de «Muito Fraca» a **«Muito Forte»**, e o tempo deixa de se medir em
segundos. Não por serem rebuscadas — não são, são seis palavras normais — mas
porque **é a única parte da tua palavra-passe que não foste tu a decidir**. Se
preferes que seja o navegador a lançar os dados, o [gerador](/pt/) faz o mesmo
sorteio e mostra-te os bits enquanto o faz.

Portanto a resposta honesta a «dá-me ideias para uma palavra-passe» é que não
precisas delas e que, aliás, tens ideias a mais. O que te falta é um dado.

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*Fontes: todos os números deste artigo saem do verificador do password.es, que
declara o seu modelo por baixo do resultado — 10¹² tentativas por segundo, ataque
offline, hash rápido — e são reproduzíveis escrevendo cada exemplo em
[/pt/verificador/](/pt/verificador/) · o motor de análise de padrões é o zxcvbn,
de Daniel Lowe Wheeler (Dropbox), apresentado na USENIX Security 2016 como
«zxcvbn: Low-Budget Password Strength Estimation» · as regras de substituição,
inversão e repetição citadas são as que as ferramentas de ataque por dicionário
trazem de série · Arnold G. Reinhold, «The Diceware Passphrase Home Page» (1995),
para as 7.776 palavras e os 12,9 bits por lançamento.*
